quarta-feira, 21 de março de 2018

Decreto de Temer cria duas maiores reservas marinhas do Brasil



Pesquisadores estudaram a cordilheira submersa entre Vitória e a ilha de Trindade, a 1.200 km do continente; ela é composta por 30 montes submarinos de origem vulcânica (crédito: João Luiz Gasparini/Divulgação)

O presidente Michel Temer assinou um decreto que transforma partes dos arquipélagos de São Pedro e São Paulo, em Pernambuco, e de Trindade e Martim Vaz, no Espírito Santo, nos dois maiores conjuntos de unidades de conservação marinha do Brasil.
Conforme o Diário Oficial da União desta terça-feira, foram criadas duas Áreas de Proteção Ambiental (APA) e dois Monumentos Naturais (Mona) nas proximidades dos arquipélagos, num total de 92 milhões de hectares – uma área equivalente aos Estados de Minas Gerais e Goiás somados.
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o decreto faz com que a porção de águas marinhas protegidas no Brasil passe de 1,5% a 25%. Isso permite que o país cumpra com folga um acordo internacional que prevê a proteção de 17% das águas marinhas e costeiras até 2020.
Para Angela Kuczac, diretora-executiva da Rede Pró-Unidades de Conservação, o decreto representou "uma vitória para a natureza".
"Os limites (das unidades) poderiam ser melhores, o desenho das áreas poderia ser mais representativo e ter incorporado áreas que ficaram de fora, mas é inegável o ganho e o avanço que tivemos hoje", afirmou.

'Floresta no fundo do mar'
Uma das reservas criadas abarca uma formação que o biólogo capixaba João Luiz Gasparini define como "uma floresta tropical no fundo do mar" – a cordilheira composta por cerca de 30 montes submarinos de origem vulcânica entre a cidade de Vitória e a ilha de Trindade, a 1.200 km do continente. 

A proteção da cordilheira – dona da maior variedade de espécies que vivem em recifes entre todas as ilhas brasileiras – era uma demanda antiga de pesquisadores, que a consideram essencial para a manutenção de estoques pesqueiros em águas vizinhas e um dos melhores laboratórios naturais do mundo. A cadeia ganhou visibilidade global em agosto de 2017, quando um estudo baseado na formação de sua fauna foi capa da revista científica Nature.
Coautor do artigo, João Luiz Gasparini descreve o espanto de sua primeira visita a Trindade, em 1995. Logo após desembarcar na ilha, diz ter encontrado numa poça de maré uma espécie que jamais havia sido catalogada pela ciência - um peixe azulado com uma mancha amarela no topo. "De cara percebi que existia ali um universo fantástico para ser explorado", ele diz.


Cadeia de montes submarinos entre Vitória e a ilha de Trindade guarda "floresta tropical no fundo do mar" | Imagem: Museu Nacional - UFRJ

O animal, batizado Stegastes trindadensis, integra o grupo de 13 espécies de peixes recifais endêmicas (restritas ao local) registradas na cordilheira até agora. Somando-as às que também habitam outras regiões, a lista alcança 270 espécies de peixes recifais – 24 delas ameaçadas de extinção –, uma das mais altas taxas de diversidade entre todas as ilhas do Atlântico.
Também habitam a cordilheira cerca de 140 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubarões e 12 de golfinhos e baleias.
Para Gasparini, há muitas outras espécies a descobrir. "A gente ainda mal arranhou a casca do ovo da biodiversidade da cadeia Vitória-Trindade."
Pesquisadores tentam agora ultrapassar pela primeira vez o ponto no fundo do mar a partir do qual a temperatura cai drasticamente, uma variação conhecida como termoclina. Por enquanto, alcançaram no máximo 80 metros de profundidade.


A reserva tem 40 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubarões e 12 de golfinhos e baleias (Crédito: João Luiz Gasparini/Divulgação)

Abaixo dessa zona, sobre montes mais distantes da superfície, esperam encontrar espécies distintas das vistas até agora. "Os recifes mais profundos são o novo éden, a próxima fronteira para quem quer fazer mergulho científico no mundo", diz Gasparini.

Mergulho desafiador
Há muitos anos pesquisadores tentam chegar às águas frias da cordilheira, mas a distância entre a costa e os montes submersos mais fundos torna a missão complexa.
Navios da Marinha costumam levar três dias para chegar a Trindade, onde o Brasil mantém uma base militar. E para mergulhar até as profundezas com segurança, é preciso contar com equipamentos caros.
O biólogo capixaba Hudson Pinheiro, principal autor do artigo na Nature e que faz pós-doutorado na California Academy of Sciences, diz que as eras glaciais ajudam a explicar a biodiversidade da região.
Naqueles períodos, enquanto os habitats costeiros eram afetados pela redução do nível da água, os montes submarinos ficaram expostos como ilhas, tornando-se refúgios para a vida marinha.

Conforme o nível do mar subiu nos últimos 10 mil anos, muitas dessas espécies permaneceram isoladas e se adaptaram aos novos ambientes, agora submersos. Mesmo assim, a cadeia jamais perdeu a conexão com o continente, pois muitas espécies costeiras usam os montes como trampolins, deslocando-se pela cadeia de uma extremidade à outra, no meio do Atlântico.
Hoje ao menos dez desses montes têm entre 30 metros e 150 metros de profundidade. O elo da cordilheira com o continente, diz Pinheiro, é o que torna a formação brasileira única no mundo. Há outras cadeias montanhosas de origem vulcânica no meio do oceano, como o Havaí. Mas, como estão distantes do continente, o deslocamento das espécies nessas áreas é limitado.

Outra explicação para a riqueza da fauna na cordilheira é variedade de algas calcárias, um tipo de planta marinha responsável pela formação de recifes naturais. Há na cadeia 16 espécies dessas algas, que criam nichos e habitats para centenas de outras espécies.
Pinheiro era um dos principais entusiastas da criação da reserva marinha. Hoje, diz ele, a área está ameaçada pela pesca comercial e pela mineração.
Há na região relatos sobre a ação de barcos com redes presas a grandes rodas, do tamanho de pneus de caminhão, que são arrastadas sobre os recifes.


O Ministério do Meio Ambiente enviará um decreto à Presidência para a criação de uma unidade de conservação em torno da cordilheira (Crédito: João Luiz Gasparini/Divulgação)

Outro tipo de pesca que preocupa os pesquisadores é a feita com espinhel, quando anzóis são enfileirados para capturar peixes maiores. Tubarões são muito vulneráveis a esse método de captura; como geram poucos filhotes, podem ser rapidamente aniquilados.
Não só barcos brasileiros atuam na cordilheira. Parte da cadeia Vitória-Trindade fica em águas internacionais, por onde transitam barcos estrangeiros. Segundo os pesquisadores, há relatos de que esses barcos também estariam pescando no mar territorial brasileiro, o que é ilegal.
Em nota a Marinha disse realizar patrulhas regulares na cordilheira para inspecionar e apreender embarcações irregulares.

Outro temor dos pesquisadores era a mineração submarina. Segundo um estudo no site do ICMBio, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) já concedeu duas licenças para a exploração de bancos de rodolito (crostas de alga calcária e outros organismos) e recifes de corais na cadeia Vitória-Trindade.
A atividade durou três anos, e o material extraído foi usado como fertilizante em plantações de cana-de-açúcar. No site do DNPM há registro de novos pedidos de licença na região.
Os pesquisadores registraram 13 espécies de peixes recifais endêmicas (restritas ao local) na cordilheira até agora (crédito: João Luiz Gasparini/Divulgação)

Segundo Pinheiro, a atividade destrói formações que levam milhares de anos para se desenvolver e põe em risco muitas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção.
O pesquisador disse esperar que a criação da reserva ponha fim à atividade e que a proibição da pesca em partes da cordilheira ajude a repor estoques de peixes em áreas vizinhas sobrexploradas.

Fonte BBC Brasil